Gláucio,
Eu concordo que a equação não está completa. Você se esqueceu de
considerar um conjunto enorme de questões, como o respeito às
liberdades individuais, a discriminação racial agravada pela
repressão, os danos ecológicos provocados pela "guerra às drogas" em
países como a Colômbia. Sem contar que o uso de substâncias
psicoativas nem sempre é problemático, como você deve saber.
Portanto, há uma falha no seu argumento. Caso haja comprovação
experimental de outros cientistas (como você também já deve saber, é
assim que a Ciência funciona), esse estudo revela, no máximo, que
existe um grupo de pessoas para as quais o uso de maconha não é
recomendado. Da mesma forma existem pessoas para as quais não se
recomenda o ácido acetisalicílico (presente na aspirina). Seria esse
um motivo para se proibir tal substância?
________________________________________
Recebi a carta acima de um leitor do blog que ilustra como as questões relacionadas com a Segurança Pública se transformaram em questões políticas com forte dose ideológica e com traços de combate pessoal. As pessoas pegam fogo e partem para agressões, nem sempre sutis como a do missivista, cuja identidade protegi através do anonimato. Precisamos, de alguma maneira, retirar essas questões do âmbito ideológico e, particularmente, do pessoal.
Como fazer para superar isso? Como transformar as teses que são defendidas “contra viento y marea” por hipóteses que tentamos testar?
Caso os leitores necessitem de informação a respeito da minha formação e da produção científica é só entrar na Plataforma Lattes.
Uso o ensejo para sublinhar problemas com o argumento:
Apresentar um elenco de razões sem prioridades é fácil; estabelecer o peso relativo de cada variável é difícil;
Os dados contrários são importantes. Quantas vidas foram salvas pelas políticas implementadas na Colômbia, tanto por prefeitos excepcionais como Guerrero, Mockus, Peñaloza, Garzón, quanto pelo governo federal de Uribe?
A literatura empírica sobre os danos causados pelo uso de drogas é gigantesca, imensa. Quem trabalha em instituição universitária, sabe ler em Inglês e não é refratário a números e estatísticas, pode e deve consultar o Portal CAPES de Periódicos, colocado à nossa disposição, onde encontrará parte grande dessa literatura. A busca pode ser efetuada usando o próprio Portal, Google Scholar e outros instrumentos de pesquisa através da internet.
Um espaço para discussão - em Portugues e outros idiomas - das teorias contemporâneas do crime, pensado, também, como um curso gratuito para interessados que sigam as leituras. Para ver um gráfico em maior detalhe clique duas vezes nele
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3.15.2007
3.14.2007
A legalização da maconha
Decisões que nos afetam são tomadas constantemente por pessoas sem conhecimento nem informação adequadas sobre aquele tema específico, começando pelo Presidente da República, ministros, senadores, deputados, governadores etc. Dependendo da área, ocupantes de cargos decisórios podem nem saber a quem consultar. Essa deficiência é, em parcela que creio razoável, conseqüência de um sistema universitário que permite que entremos e terminemos uma carreira sem ter noção do que passa em outras áreas. O ensino das ciências, no Brasil, tem sido particularmente deficiente e nosso cargos públicos estão preenchidos, em quase a totalidade, por pessoas que pouco ou nada sabem sobre o que a(s) ciências(s) tem a contribuir sobre aquele tema. O que é pior: muitos acham que sabem.
Discutimos, mais uma vez, a descriminalização e a legalização de drogas. Creio que os prováveis benefícios são conhecidos, dada a associação entre o tráfico de drogas e a violência.
Se forem apenas esses os termos da equação, a escolha é óbvia: descriminalização já!
Mas a equação não está completa: há um preço a pagar.
Eu subscrevo PsychiatryMatters MD e outras publicações que me informam sobre as pesquisas de fronteira em psiquiatria. No número de hoje, quarta-feira, 14 de março, há um interessante artigo sobre defeitos no cérebro e o uso de maconha entre esquizofrenicos.
O que a pesquisa sugere é a existência de defeitos no cérebro (no anterior cingulate) entre pessoas que sofrem seu primeiro episódio esquizofrênico e o uso de maconha. Os autores concluem que "os resultados são compatíveis com a hipótese de que alterações estruturais na massa cinzenta em pacientes com esquizofrenia que usam maconha podem estar associadas com a incapacidade de tomar decisões sensatas e mediam a compulsão ao uso de drogas". Foram pesquisados 51 pacientes com o seu primeiro episódio de esquizofrenia e 56 controles, que não eram doentes mentais, usando ressonância magnética. Os usuários de maconha tinham menos massa cinzenta no anterior cingulate (parte do sistema límbico; os psiquiatras acreditam que participa de integração entre a cognição e as emoções) do que os demais pacientes, que não usavam maconha, e os controles. Os pacientes que não usavam maconha e os controles tinham volumes parecidos nas diversas áreas estudadas.
Decisões arriscadas são tomadas por pessoas que usam drogas, de acordo com um grande número de pesquisas. Os que usam maconha tendem a tomar decisões com gratificações imediatas a despeito de perdas pesadas a médio e longo prazo.
Há, claro, uma possibilidade de endogenia nas pesquisas entre esquizofrênicos: o uso de maconha reduz a massa cinzenta ou a deficiência na massa cinzenta predispõe ao uso de maconha?
Evidentemente, é uma consideração importante que merece ser estudada e entrar na equação. Porém, não aparece na equação simples (às vezes simplória) dos que apresentam a descriminalização (ou até legalização) desta ou daquela droga como uma decisão política que só tem benefícios. Temos que avaliar os custos e os benefícios.
O estudo original foi publicado no
Br J Psychiatry 2007; 190: 230-236
Pesquisa Já!
Discutimos, mais uma vez, a descriminalização e a legalização de drogas. Creio que os prováveis benefícios são conhecidos, dada a associação entre o tráfico de drogas e a violência.
Se forem apenas esses os termos da equação, a escolha é óbvia: descriminalização já!
Mas a equação não está completa: há um preço a pagar.
Eu subscrevo PsychiatryMatters MD e outras publicações que me informam sobre as pesquisas de fronteira em psiquiatria. No número de hoje, quarta-feira, 14 de março, há um interessante artigo sobre defeitos no cérebro e o uso de maconha entre esquizofrenicos.
O que a pesquisa sugere é a existência de defeitos no cérebro (no anterior cingulate) entre pessoas que sofrem seu primeiro episódio esquizofrênico e o uso de maconha. Os autores concluem que "os resultados são compatíveis com a hipótese de que alterações estruturais na massa cinzenta em pacientes com esquizofrenia que usam maconha podem estar associadas com a incapacidade de tomar decisões sensatas e mediam a compulsão ao uso de drogas". Foram pesquisados 51 pacientes com o seu primeiro episódio de esquizofrenia e 56 controles, que não eram doentes mentais, usando ressonância magnética. Os usuários de maconha tinham menos massa cinzenta no anterior cingulate (parte do sistema límbico; os psiquiatras acreditam que participa de integração entre a cognição e as emoções) do que os demais pacientes, que não usavam maconha, e os controles. Os pacientes que não usavam maconha e os controles tinham volumes parecidos nas diversas áreas estudadas.
Decisões arriscadas são tomadas por pessoas que usam drogas, de acordo com um grande número de pesquisas. Os que usam maconha tendem a tomar decisões com gratificações imediatas a despeito de perdas pesadas a médio e longo prazo.
Há, claro, uma possibilidade de endogenia nas pesquisas entre esquizofrênicos: o uso de maconha reduz a massa cinzenta ou a deficiência na massa cinzenta predispõe ao uso de maconha?
Evidentemente, é uma consideração importante que merece ser estudada e entrar na equação. Porém, não aparece na equação simples (às vezes simplória) dos que apresentam a descriminalização (ou até legalização) desta ou daquela droga como uma decisão política que só tem benefícios. Temos que avaliar os custos e os benefícios.
O estudo original foi publicado no
Br J Psychiatry 2007; 190: 230-236
Pesquisa Já!
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