Um espaço para discussão - em Portugues e outros idiomas - das teorias contemporâneas do crime, pensado, também, como um curso gratuito para interessados que sigam as leituras. Para ver um gráfico em maior detalhe clique duas vezes nele

Mostrando postagens com marcador a responsabilidade dos usuários. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador a responsabilidade dos usuários. Mostrar todas as postagens

2.02.2007

A campanha contra o tráfico e a resposta dos traficantes

A luta contra o tráfico tem muitos efeitos. Num modelo que soma zero, quem não consegue o dinheiro que quer através de uma atividade criminosa que foi bloqueada, vai para outra atividade criminosa. Passaria a assaltar. Os dados a que temos acesso, até agora, não apoiam esse modelo de maneira tão mecânica.

Primeiro, muitos criminosos não são criminosos com dedicação exclusiva. Assaltam num momento, fazem uma entrega legítima noutro, ajudam numa construção numa terceira e assim por diante. O bloqueio de uma atividade ilícita, o tráfico, não os redireciona obrigatoriamente para outra atividade ilícita. Depende das oportunidades presentes.

Segundo, há níveis de impedimento ético diferente. Muitas pessoas furtam oportunisticamente (como afanar uma carteira deixada num banheiro público, sem procurar devolvê-la); outros vão um passo além e intencionalmente furtam algo (metem a mão numa bolsa e tiram dinheiro); terceiros roubam (com uso de força e/ou violência), como puxar a bolsa da mão ou ombro da pessoa; a próxima escala é o assalto; seguido do assalto a mão armada. O homicídio e o latrocínio estão no alto dessa escalada. O uso da força e da violência também acarreta a possibilidade de força e violência contra o criminoso.

Terceiro, e mais importante, o redirecionamento da atividade depende de oportunidades de outras atividades rentáveis e do poder da dissuasão do sistema policial e judiciário. Como andamos mal, muito mal, nessas duas áreas (e aqui, no Rio de Janeiro, andamos muito mal mesmo), uma percentagem maior de pessoas buscará e não encontrará atividades não-criminosas sem que sejam dissuadidas de escalar um ou dois degraus no crime.

Quarto, a idade ajuda. A relação curvilinear, clara e universal, entre idade e crime (o criminoso é jovem, adolescente ou jovem adulto) significa que muitos que estiveram no crime desistem com a idade. Mais uma vez, oportunidades de trabalho, por um lado, e tanto a dureza da pena quanto a certeza da punição influenciam a forma dessa curva.

1.25.2007

Crime e alcoolismo durante a gravidez

O comportamento criminoso tem raízes profundas. Não há, claro, o comportamento criminoso. Há vários, alguns com uma teia de determinações parecidas, outros não. Vejamos uma causa distante.
Em outros posters conversamos sobre o alcoolismo de algumas pessoas como um suicídio lento. Mas o alcoolismo também traz sérias conseqüências para os fetos, razão adicional e muito forte para parar.
Há três décadas que foi criada a expressão "fetal alcohol syndrome" (FAS), que se refere um padrão definido de problemas que afligem crianças cujas mães beberam álcool durante a gravidez. São muitos os problemas de ordem neurológica e comportamental que afetam as crianças e que as perseguem durante toda a vida, provocando um péssimo desempenho na escola.
Em alguns lugares a incidência e a prevalência desses problemas são muito grandes. Uma pesquisa com 992 crianças da primeira série numa comunidade da África do Sul demonstrou a existência de FAS em mais de 4% das que tinham entre 5 e 9 anos. As estimativas dependem da metodologia empregada. Em um condado no Estado de Washington, o cálculo “ativo” foi de 3,1 por mil, ao passo que os cálculos passivos variaram de 0,33 a 3 por mil. O cálculo passivo é inviável no Brasil: ele se baseia nos dados médicos existentes, usualmente coletados no parto. Mesmo onde eles são bons, muitos problemas só surgem mais tarde, não sendo visíveis ao nascer. O método ativo faz um survey da população-alvo e baseia os cálculos neles.
Há várias categorias de problemas: há deficiências cognitivas e comportamentais específicas, típicas de crianças com mães que beberam durante a gravidez.
A primeira trata de problemas na aprendizagem verbal. As crianças com FAS aprendem um número menor de palavras, mas não as esquecem com freqüência maior. Isso significa que a deficiência aparece na etapa de codificação da memória e diferencia crianças com FAS das crianças com a Síndrome de Down que tem tanto a aprendizagem quanto a memória prejudicadas.
Mas não é só. A aprendizagem espacial e visual também é afetada. Conseguem lembrar um número menor de objetos retirados da mesa em frente. A atenção é afetada. Coles e associados contribuíram para evitar uma confusão com crianças hiper-ativas com desordem de atenção. Essas crianças apresentam dificuldades em focalizar e manter a atenção, bem diferente das crianças com mães que beberam na gestação, que tem dificuldade em mudar o foco da atenção. Podem, sim, colocar atenção em A, mas apresentam dificuldade em mudar para B.
Uma das heranças malditas que mães que bebem deixam em seus filhos é a lentidão. O tempo para reagir e resolver problemas é maior. Crianças com FAS processam informação mais vagarosamente e de maneira menos eficiente. Jacobson e associados descobriram esses problemas em crianças muito pequenas, de seis meses, medidos através dos movimentos dos olhos quando novos estímulos eram apresentados.
As funções que requerem pensamento abstrato, planejamento e organização são muito prejudicadas. Por exemplo: as crianças tem dificuldade em passar de dar nomes a animais para objetos de mobiliário e, outra vez, para animais. Essas crianças desenvolvem uma incapacidade de mudar de estratégias para resolver problemas: voltam a tentar da mesma maneira que fracassou antes.

Neurofisiólogos estudam, também, a estrutura do cérebro. Parte da herança maldita é a redução no tamanho do cérebro, particularmente de algumas áreas. Uma delas é chamada de basal ganglia que, quando danificada, dificulta a memória espacial e a mudança entre conjuntos tanto em animais quanto em pessoas.



Outra área reduzida é o cerebelo que parece operar parte do equilíbrio, da coordenação e da cognição. O cerebelo fica na base do cérebro e também é afetado pelo alcoolismo materno.



Os danos não param aí. O alcoolismo durante a gravidez provoca uma série de disfunções no cérebro do feto, com sérias conseqüências para a vida e a funcionalidade da criança.



O corpus callosum parece ligar a metade esquerda com a direita do cérebro: nada menos de 7% das crianças com mães que beberam durante a gravidez nascem sem ele. É uma percentagem vinte vezes maior do que a encontrada na população como um todo. Para ver imagens do corpus callosum clique aqui e aqui.

Há muitas razões para parar de beber. Os filhos são as principais: cada um é uma razão forte.

O que tem isso que ver com o crime?
É só ver as estatísticas a respeito do número de criminosos cuja mãe era alcoólatra, comparando com a população em geral.