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3.18.2006

O Ciclo Vital

Como a criminalidade tem clara relação com a idade, teoria e pesquisa não a podem deixar de fora. As teorias baseadas primordialmente na idade, que é uma grande proxy, são chamadas de life-cycle theories.
Muitos criminólogos contribuíram para o entendimento deste ciclo. Sampson é um dos mais conhecidos, mas não trabalhou estritamente dentro desta perspectiva. Há outros. Como Sampson é dos mais conhecidos, estabelece pontes com outras orientações e disponibiliza vários dos seus trabalhos, vamos dar uma atenção especial a êle.

Comecemos com um capítulo de um livro, A Life-Course View of the Development of Crime

Sampson e Laub analisaram dados de uma pesquisa longitudinal para testar os efeitos das mudanças relacionadas com a idade e como elas afetavam a criminalidade. Os resultados estão em um artigo, LIFE-COURSE DESISTERS? TRAJECTORIES OF CRIME AMONG DELINQUENT BOYS FOLLOWED TO AGE 70

Em outro artigo, levam a discussão mais a fundo: A general age-graded theory of crime

Já testamos a relação entre idade e vitimização e ela funciona no Brasil, mas ainda não fizemos um bom teste da relação entre idade e criminalidade.

6 comentários:

Ludmila Ribeiro disse...

Trata-se de três artigos confeccionados a partir de uma mesma base de dados, a qual é interessante por abordar a vida de 500 homens delinqüentes e 500 não delinqüentes, os quais foram observados desde em diversos momentos da vida e agrupados em distintas faixas etárias que variavam entre 7 e 70 anos de idade, ou seja, cada indivíduo, nos 35 anos de estudo, envelhecia de acordo com a sua faixa e era com eles contrastado. Obviamente que todos os indivíduos não sobreviveram durante todos os 35 anos de estudo, mas, como eles apresentam estórias de vidas diversas e, simultaneamente semelhantes entre alguns pares, foi possível o controle de coravariatas comumente usadas na compreensão dos determinantes do comportamento criminoso. Por outro lado, esta mesma base viabilizou ainda a consideração de outras variáveis que, até o presente momento, ainda permaneciam desconhecidas pela criminologia no entendimento da propensão ao cometimento de um delito. Portanto, o mérito dos autores está em empreender uma análise globalizante simultaneamente dinâmica acerca dos fatores que interferem, direta ou indiretamente, sobre o risco de um indivíduo cometer um crime ao longo de sua vida e como este risco varia, principalmente, de acordo com as experiências que cada um experimenta com o passar da idade. No entanto, novamente, creio ser inviável a realização de estudos como este no cenário brasileiro.

Denise disse...

No primeiro artigo: A Life-course View of the Development of Crime, Sampson e Laub analisam um argumento bem interessante: em diferentes momentos da vida o indivíduo pode envolver-se em novas redes de relações institucionalizadas ou não que podem influenciar na desistência do comportamento criminoso. Ou seja, se por um lado experiências da infância e adolescência modelam tendências de comportamento criminoso, por outro experiências ao longo da vida podem ajudar a reverter essa tendência na medida em que (re)inserem o indivíduo em relações e estruturas que o constrangem formal ou informalmente. Combinar o efeito das motivações dos homens à análise dos constrangimentos estruturais possibilita entender melhor não só o comportamento criminoso, mas uma série de comportamentos dos indivíduos. Gostaria de saber se há pesquisas no Brasil que possam realizar em parte o teste de Sampson sobre o efeito do matrimônio na desistência do crime.

Doriam disse...

No artigo "A Life-Course View of the Development of Crime", os autores fazem uma crítica às teorias da criminologia tradicional, que agrupam os delinqüentes em diferentes estágios da carreira criminosa. Os autores trabalham com a idéia de que o comportamento desviante pode mudar ao longo da vida, já que estes vivenciam diferentes experiências e adquirem novas motivações.
Para os autores, tanto o crime quanto a motivação para o comportamento criminoso são mais bem explicados quando se trabalham com os atributos individuais e o contexto e, principalmente, a interação entre estas duas variáveis. Seguindo nesta direção, foi realizada uma vasta revisão literária, e buscou-se mostrar empiricamente que existem: diferenças de idade segundo a intensidade dos crimes cometidos; mudanças das atividades criminosas, que coincidem com as mudanças da própria vida; conexão entre a realização de distúrbios, de condutas anti-sociais conforme os grupos de idade e a prática de delitos.
Os autores construíram um modelo que busca prever o risco de uma criança ou um adolescente de participar de atividades criminosas, utilizando o papel da família como um possível preditor do comportamento delinqüente. Neste trabalho é estimado um modelo de regressão que tem como resultado principal à diferenciação da natureza do delito variando pela idade, e que conforme o aumento da idade, uma menor quantidade de pessoas participando de atividades criminosas. Outro ponto importante abordado neste artigo é a influencia do casamento no risco em participar de atividades criminosas. Segundo os autores o casamento diminui este risco, e concluem que o casamento inibe o comportamento delinqüente ao longo da vida.

Doriam disse...
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Doriam disse...

No trabalho "A general age-graded theory of crime: lessons learned and the future of life-course criminology", os autores realizam uma análise longitudinal estudando os fatores que interferem no risco de uma pessoa cometer um crime ao longo da vida, e como este risco varia segundo suas experiências com o passar da idade.
Os autores comentam que existem cada vez mais estudos que estão deixando de estudar apenas as características do autor, da vítima, do contexto ou do sistema de justiça criminal, e procurando entender as motivações para o ato criminoso. Segundo os autores, as motivações para o crime mudam segundo o curso da vida tanto do delinqüente, como também da sociedade em que ele vive. Ou seja, a mudança de idade altera não apenas a estrutura do ofensor como pode também a ofensa, ainda que esta seja da mesma natureza que as já aplicadas.
Segundo os autores, os controles familiares e escolares possuem grande influencia sobre o que leva uma criança a participar de uma atividade criminosa. Acrescenta que ter sido uma criança desviante não implica em ser um adulto criminoso. As análises realizadas pelos autores demonstraram que há uma mudança constante nos fatores que aumentam ou diminuem as chances de um indivíduo participar ou permanecer na carreira criminosa ao longo da vida. Estes fatores atuam em conjunto com o envelhecimento, com as experiências relevantes ao longo da vida e com as transformações verificadas na ordem social; com os contatos freqüentes (ou não) que o indivíduo possui com as instituições de controle formal (polícia, justiça e sistema penitenciário), etc.

Anônimo disse...

Obrigado por Blog intiresny