Um espaço para discussão - em Portugues e outros idiomas - das teorias contemporâneas do crime, pensado, também, como um curso gratuito para interessados que sigam as leituras. Para ver um gráfico em maior detalhe clique duas vezes nele
12.29.2006
Consumo de álcool e Suicídio em Portugal
A análise temporal sugere que para cada aumento de um litro no consumo de bebidas alcoólicas corresponde um aumento de 1,9% na taxa de suicídios. Os autores sublinham que o aumento é semelhante ao observado na França e na Dinamarca, mas menor do que o constatado na Noruega, Suécia e Hungria.
Os dados espaciais produzem outros resultados, diferentes. No nível bivariato há uma substancial correlação negativa (como na análise temporal), porém quando a integração familiar e a religião são controladas, a correlação entre os resíduos não é estatisticamente significativa, ainda que negativa.
Considero a possibilidade de que o alcoolismo funcione como variável interveniente e que boa parte da perda da religião e da dissolução da família sobre o suicídio se faça através do aumento do alcoolismo.
O estudo é relevante do ponto de vista das teorias do crime porque as variáveis explicativas - alcoolismo, integração familiar e religião - também fazem parte do arsenal analítico da Criminologia.
12.06.2006
É possível obter bons resultados de um ano para o outro. Em 2003, Los Angeles apresentou uma queda de 23% nos homicídios.
Crimes violentos, em geral, caíram 4.3% de acordo com os dados do Los Angeles Police Department. Foram 505 homicídios; tinham sido 658 no ano anterior. Esta é a ordem de grandeza dos homicídios no Estado do Rio de Janeiro, mensalmente.
As estatísticas dizem que os estupros caíram 9%, para 1.115; tinham sido 1.231 em 2002. Outros crimes também baixaram.
Econômicamente, 2003 não foi um ano bom para os Estados Unidos, com crescimento do desemprego, o que nos diz que os indicadores econômicos não são condição necessária para a redução dos crimes violentos.
- Lá, como aqui, as vítimas foram predominantemente homens jovens entre 15 e 25.
- Um grande número está vinculado a gangues
- como aqui, se concentram nas noites, sobretudo de sexta até domingo.
- Metade das vítimas eram Latinas, 39% negros (que representam apenas 11% da população), 7% brancos (que são 30% da população) e 9% de outras raças e etnias.
- Em Los Angeles, como no Rio de Janeiro e as cidades grandes, há uma diferenciação espacial clara, com bairros violentos e bairros não-violentos.
Gangues e homicídios em Los Angeles
As ações das gangues, sobretudo as guerras entre elas, são uma das principais causas de mortes violentas em várias cidades do mundo. As gangues estão ganhando fama mundial e se transformando em mega-organizações criminosas. Talvez as mais conhecidas sejam as maras formadas inicialmente por salvadorenhos.Essas mortes respondem às políticas públicas e à falta delas também. Alejandro Alonso, um pesquisador da USC, preparou cuidadosamente o gráfico que reproduzimos à esquerda, que mostra
- o elevado número de mortes relacionados com as gangues, em Los Angeles;
- as flutuações nessas mortes, que contrariam a tendência mais geral das mortes violentas a uma certa estabilidade
- evidentemente, quando fração significativa das mortes se devem a grupos ou categorias específicas, as políticas focalizadas são indicadas.
11.28.2006
Armas de fogo, suicídios de jovens e teorias de oportunidade
* A eficiencia das armas de fogo se reflete no fato de que para cada suicídio que se materializa há menos de um que fracassa
* Nos Estados Unidos, em 1992, um jovem entre 10 e 19 se suicidou com arma de fogo cada seis horas (1.426 num ano)
* O CDC informa que o aumento na taxa de suicídios se deve ao uso de armas mais letais (de fogo)
* Entre 1980 e 1992, nos USA, a taxa de suicidios entre 15 e 19 aumentou 26,3%, mas entre 10 e 14 aumentou 120%; entre negros 15 a 19 o aumentou foi de 165,3%
* As armas de fogo sao responsáveis por 81% do aumento no suicídio de jovens
* A existência de uma arma de fogo em casa dobra a probabilidade de que um adolescente se suicide
* Entre 1960 e 1980, o número de mulheres que se mataram usando armas de fogo mais do que dobrou, ao passo que o número das que usaram outros meios aumentou em 16%
* A maioria dos suicídios de teenagers é “ impulsiva”, não planejada, e 70% ocorrem em casa
* Suicídio e homicídio têm "janela", um impulso auto-destrutivo e/ou vingativo que não dura para sempre; tem prazo de validade.
* Durante essa janela, o acesso a armas de fogo multiplica o risco de morte
* Passada a janela, o impulso suicida ou homicida se reduz ou, até mesmo, acaba
Esses dados apoiam as teorias explicativas baseadas no conceito de oportunidade.
10.11.2006
Latrocínios em São Paulo, controlando o efeito das diferenças mensais

- O uso de dados mensais permite ver que a redução no risco de latrocínio foi sensivel durante todo o ano e não apenas o efeito de um mes excepcional: o número de latrocínios em 2005 foi menor do que 2004 em todos os meses, exceto abril.
- Os dados de 2006 (disponíveis para os primeiros meses) mostram totais inferiores em 2006, em relação a 2004, em cinco meses e igual em dois; em relação a 2005, foi inferior em quatro, igual em dois e superior em um.
- Essas demonstrações parecem repetitivas, mas são necessárias porque demonstram a importância de políticas públicas acertadas e avaliadas e, sobretudo, de sua continuidade.
- As respostas, significativas e continuadas, mostram que não é dificil reduzir as taxas de risco - e salvar vidas.
- É preciso competência e vontade política e não depende de partidos.
Políticas Públicas e Latrocínios

- Talvez o crime que mais medo provoque seja o latrocínio que, não obstante, não é comum em relação aos homicídios. É raro o número de latrocínio chegar a dez por cento de todas as mortes intencionais (excluíndo suicídios). Não obstante, os latrocínios também respondem às mesmas políticas públicas que reduzem os homicídios. Latrocínios, quase sempre, acontecem com o uso de arma e, na atualidade, com o uso de armas de fogo. Os latrocínios respondem - e muito - ao tipo de legislação que pune o uso de armas de fogo durante os crimes. Estar de posse de arma de fogo aumenta a pena; sacar a arma de fogo aumenta mais; sacar e disparar aumenta ainda mais e, finalmente, matar com arma de fogo significa um grande adicional à pena.
- As políticas usadas em São Paulo salvaram perto de cem vidas de 2003 a 2004 e outras duzentas em 2005. Em dois anos, trezentas mortes a menos somente em casos de latrocínio.
- Algumas medidas constantes de políticas públicas produzem resultados a curto prazo, outras não. É importante saber que as medidas devem ser consistentes e, se corretas (o diagnóstico da correção requer avaliação), implementadas de forma contínua. Um claro exemplo dos efeitos deletérios da descontinuidade é o da nova Lei do Trânsito, que provocou baixa de entre 4 e 5 mil mortes em 1998. Posteriormente, houve relaxamento e as mortes voltaram a subir.
- Uma grande dificuldade de manutenção de políticas deriva das mudanças no governo: novos governos, em todos os niveis, mais interessados em desconstruir a imagem do(s) anterior(es) do que em salvar as vidas dos seus governados.
- Outra dificuldade deriva da extrema leniência e incompetência da justiça brasileira no trato com o crime. Os presos por crimes violentos e por outros crimes graves, que atingem muitas pessoas, passam pouco tempo presos, "pagam" muito menos do que o dano que causaram às vítimas e suas famílias.